CORAÇÃO ACORDEÃO

Um blogue de variedades. {Arquivo}
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“Reproduction is always sacrificial.”

– G. Stanley Hall, “Adolescence”.

“The great mission of the Utopia is to make room for the possible as opposed to a passive acquiescence in the present actual state of affairs. It is symbolic thought which overcomes the natural inertia of man and endows him with a new ability, the ability constantly to reshape his human universe.”

– Ernst Cassirer, “An Essay on Man”.

QUATRO NOTAS E MEIA SOBRE ESTE LIVRO, QUE ESTOU SEM FÔLEGO PARA ARTICULAR UM TEXTO CORRIDO
1. Há um poema que foi o primeiro poema que li. Já tinha lido poemas antes, claro, mas foi aquele que se me escancarou à frente aberto em enigma: eu ia a...

QUATRO NOTAS E MEIA SOBRE ESTE LIVRO, QUE ESTOU SEM FÔLEGO PARA ARTICULAR UM TEXTO CORRIDO

1. Há um poema que foi o primeiro poema que li. Já tinha lido poemas antes, claro, mas foi aquele que se me escancarou à frente aberto em enigma: eu ia a passar e ele, como os vendedores ambulantes de bonecos a pilhas, mandou-me para a frente o baralho de cartas: jogas ou não jogas? Nenhuma coisa exclusiva naquele poema específico, haveria muitos capazes do frete — mas era o que estava à mão quando algum deus se apiedou da minha errância bronca, de si para si «O gajo sozinho não vai lá», e interferiu. Comecei a jogar.

2. Manuel António Pina, numa entrevista: «A minha mulher é fantástica, deve ser a única pessoa que nunca escreveu um poema na vida». Eu não sou a mulher de Manuel António Pina — e prevariquei.

3. Posso comparar a «minha poesia» (a expressão causa-me comichões, mas dá agora jeito ao arranjo do texto) a um exercício de ginástica artística executado na perfeição — mas sem grau de dificuldade que justifique uma nota muito alta. O que reclamo aqui não é a execução perfeita; é o grau de dificuldade modesto. Doutra maneira: mantenho três ou, nos meus melhores dias, quatro bolas no ar, e à quinta correria grandes riscos de me desmoronar em pretensiosismo. Doutra maneira ainda: o meu jogo vai da superfície até uns poucos metros de profundidade; o leitor que mergulhar abaixo disso vai por sua conta, não lhe dou assistência (Ruy Belo, por exemplo, daria, porque era escafandrista).

3.a. A meu favor: não me demoro. Poemas de um, dois, vá lá que meia dúzia de fotogramas revelados do filme da memória. Digo que não me demoro, mas isso, como se costuma dizer em informática, na óptica do utilizador: o trabalho é meticuloso, longo, porque o mecanismo de puxar o filme não deve nada à mecânica relojeira, é de arrancos para a frente e para trás — e a luz amiúde impressiona sobre o impressionado. Há que limpar da sujidade e do ruído daquele poema, a sujidade e o ruído que não são daquele poema.

4. Sobre este livro em particular: é a reedição quase exacta do que publiquei em 2007, «American Scientist», mais alguns poemas dispersos nalgumas revistas. Nada de novo, portanto. Ainda que os poemas fossem todos inéditos: nada de novo.

[A edição é da Língua Morta. Pode ser encomendado aqui: edlinguamorta@gmail.com]

“A full vessel is inaudible.

§

Every cliff has a glass edge,
every chasm a covering cloud.
Every lining has a hidden needle.

§

Many a sickle rakes the stubble.

§

A rip in space needs a stitch in time.

§

Time’s flies wait to feast on no man.

§

Art longs for the brevity of life.

§

Never a nail in the blacksmith’s forge,
nor a pen in the poet’s pocket.

§

Home is where the heart can’t live.

§

All Rome leads to are roads.

§

For the deep well: a long cord and a light bucket.

§

Where there’s a will, there’s a wall.”

– Jamie McKendrick, “Stricken Proverbs”.

“Nos dias de calor organizavam um passeio para tomarem banho nos remansos de água e saíam de casa logo muito cedo com uma legião de criados que levavam cadeiras de baloiço, chapéus-de-sol, tecidos para montar tendas, canastas com comida e refrescos, empregadas domésticas que preparavam mudas de roupa, enfim, toda uma caravana para se instalarem à beira do rio, prepararem um assado e passarem a tarde ao fresco. As mulheres tomavam banho em camisa até aos pés e, ao que parece, uma tia cujo nome não me lembro aventurou-se para o centro da corrente. Dizem que o caimão a agarrou por baixo e a submergiu até que a pobre mulher, com os pulmões cheios de água, deixou de oferecer resistência. Acto contínuo, o lagarto arrastou-a para uma ilhota, em frente do acampamento montado pelos criados e perante os olhos aterrorizados da família começou a comê-la, com toda a tranquilidade.”

– Santiago Gamboa, “A vida feliz do jovem Esteban”; tradução de Luís Filipe Sarmento.

WE HAVE NO MORE BEGINNINGS

Gosto muito de ver, enquanto espero o embarque rodoviário, o revezamento dos motoristas, oh, o que chega, como um espírito em debandada, recolhendo todo o material sujo da memória da sua transcendência e o que entra, pelo contrário, espalhando os iscos, telemóvel, auricular, garrafa de água, malinha, um destino novo no mostrador — e lá embarco então na paródia do meu recomeço.

“While I was sometimes curious what my sister was laughing at and commenting on, and what my friends liked about it, I didn’t really have much of an interest in social media, and since I didn’t have a smartphone and wasn’t allowed to join any sites at all until I was 13, it wasn’t much of an issue for me.

Then, several months ago, when I turned 13, my mom gave me the green light and I joined Twitter and Facebook. The first place I went, of course, was my mom’s profiles. That’s when I realized that while this might have been the first time I was allowed on social media, it was far from the first time my photos and stories had appeared online. When I saw the pictures that she had been posting on Facebook for years, I felt utterly embarrassed, and deeply betrayed.

There, for anyone to see on her public Facebook account, were all of the embarrassing moments from my childhood: The letter I wrote to the tooth fairy when I was five years old, pictures of me crying when I was a toddler, and even vacation pictures of me when I was 12 and 13 that I had no knowledge of. It seemed that my entire life was documented on her Facebook account, and for 13 years, I had no idea.”

– Sonia Bokhari, “The Privacy Divide”. Andando a privacidade — e o silêncio: os dois itens são parentes chegados — pelos caixotes das prateleiras mais baixas dos saldos (a escola ‘influencer’ fixando-lhe o preço máximo por aí, nada íntimo valendo o unboxing patrocinado de um corta-unhas e os dilemas da videovigilância no espaço publico resolvidos amiúde boçalmente com um arroto de «quem não deve não teme»), custa a crer a veracidade deste depoimento: seria extraordinária — como um talento —, contra toda a educação contemporânea, esta percepção da perda de algo de facto valioso.

“[…] porq a memoria he potẽcia fragil […]”

– D. Francisco Manuel de Melo, “Epanáforas de Vária História Portuguesa”

“Madredeus foi pensado de cima a baixo como um produto para vender, e vendeu. O Fausto, numa entrevista, o jornalista perguntou-lhe o que achava de Madredeus. Ele ficou muito calado e disse: ‘A música portuguesa também tem de ter o seu Mateus Rosé.’ É genial.”

– José Mário Branco numa entrevista. Eu nunca soube dizer bem o que achava dos Madredeus: tinha uma ideia, sobretudo nas canções da maturidade, de um postal ilustrado que agradasse aos turistas estrangeiros, aquelas camas rosáceas e alaranjadas onde deitar em sossego tão doces vogais, blá blá blá, nenhuma casca, nenhum caroço, nenhum osso, nenhuma espinha — e agora o Mateus Rosé veio resolver-me o problema. Não e má experiência, mas não é bem vinho; um quase vinho ou quase refrigerante para quem não gosta de vinho mas quer ser visto a beber vinho sem ter que sofrer com isso.

“Eu não nego o efeito teatral dessas primeiras e repentinas impressões; mas sustento que interessa mais essoutra inesperada e estranha impressão que nos faz um objecto já conhecido, que víramos com indiferença até ali, e que de repente se nos mostra tão outro do que sempre o tínhamos considerado.”

– Almeida Garrett, “Viagens na Minha Terra”.

“Custa depois a encher aquela altura que se marcou.”

– Almeida Garrett, “Viagens na Minha Terra”.

Alessandra Sanguinetti, Buenos Aires, 2000.

Alessandra Sanguinetti, Buenos Aires, 2000.