CORAÇÃO ACORDEÃO

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QUATRO NOTAS E MEIA SOBRE ESTE LIVRO, QUE ESTOU SEM FÔLEGO PARA ARTICULAR UM TEXTO CORRIDO
1. Há um poema que foi o primeiro poema que li. Já tinha lido poemas antes, claro, mas foi aquele que se me escancarou à frente aberto em enigma: eu ia a...

QUATRO NOTAS E MEIA SOBRE ESTE LIVRO, QUE ESTOU SEM FÔLEGO PARA ARTICULAR UM TEXTO CORRIDO

1. Há um poema que foi o primeiro poema que li. Já tinha lido poemas antes, claro, mas foi aquele que se me escancarou à frente aberto em enigma: eu ia a passar e ele, como os vendedores ambulantes de bonecos a pilhas, mandou-me para a frente o baralho de cartas: jogas ou não jogas? Nenhuma coisa exclusiva naquele poema específico, haveria muitos capazes do frete — mas era o que estava à mão quando algum deus se apiedou da minha errância bronca, de si para si «O gajo sozinho não vai lá», e interferiu. Comecei a jogar.

2. Manuel António Pina, numa entrevista: «A minha mulher é fantástica, deve ser a única pessoa que nunca escreveu um poema na vida». Eu não sou a mulher de Manuel António Pina — e prevariquei.

3. Posso comparar a «minha poesia» (a expressão causa-me comichões, mas dá agora jeito ao arranjo do texto) a um exercício de ginástica artística executado na perfeição — mas sem grau de dificuldade que justifique uma nota muito alta. O que reclamo aqui não é a execução perfeita; é o grau de dificuldade modesto. Doutra maneira: mantenho três ou, nos meus melhores dias, quatro bolas no ar, e à quinta correria grandes riscos de me desmoronar em pretensiosismo. Doutra maneira ainda: o meu jogo vai da superfície até uns poucos metros de profundidade; o leitor que mergulhar abaixo disso vai por sua conta, não lhe dou assistência (Ruy Belo, por exemplo, daria, porque era escafandrista).

3.a. A meu favor: não me demoro. Poemas de um, dois, vá lá que meia dúzia de fotogramas revelados do filme da memória. Digo que não me demoro, mas isso, como se costuma dizer em informática, na óptica do utilizador: o trabalho é meticuloso, longo, porque o mecanismo de puxar o filme não deve nada à mecânica relojeira, é de arrancos para a frente e para trás — e a luz amiúde impressiona sobre o impressionado. Há que limpar da sujidade e do ruído daquele poema, a sujidade e o ruído que não são daquele poema.

4. Sobre este livro em particular: é a reedição quase exacta do que publiquei em 2007, «American Scientist», mais alguns poemas dispersos nalgumas revistas. Nada de novo, portanto. Ainda que os poemas fossem todos inéditos: nada de novo.

[A edição é da Língua Morta. Pode ser encomendado aqui: edlinguamorta@gmail.com]